domingo, outubro 22, 2006


Uniformes de colégios romanos Posted by Picasa
A raridade da iconografia relativa ao trajo académico conimbricense para o período anterior ao século XIX postula dificuldades de compreensão visual e documental deste uniforme.
Investigações concretizadas nos anos de 1988-1989, com vista ao delineamento das bases de um projecto de reconstituição que passaria pela manipulação de tecidos de época e manequins, tinham-me permitido chegar com grande rigor a uma ideia do(s) figurinos do trajo constituído por Loba+Mantéu nos séculos XVII e XVIII.
Tive então a sorte de contactar no Seminário de Coimbra com o Cónego Dr. Brito Cardoso* que, além de possuir um bem guarnecido guarda-roupa eclesiástico (logo colocado ao alcance da minha curiosidade), estudara em Roma no período anterior à grande simplificação do vestuário eclesiástico operada pelo Vaticano II, e ali conhecera de perto os uniformes em uso nos meios universitários católicos.
O fruto imediato desta proveitosa colaboração traduziu-se na percepção de que a Loba não era uma peça singular, mas sim o resultado da sobreposição de dois elementos vestimentários, o que lhe conferia afinal um ar de família com o modelo antigo da Beca dos Juízes. Esta inteligibilidade seria reforçada no Seminário de Coimbra com preciosas colaborações do Padre Doutor António Nogueira Gonçalves e do Bispo jubilado de Aveiro D. Manuel de Almeida Trindade. Em 1990 a pesquisa seria enriquecida pela amabilíssima colaboração prestada pelo Cónego Doutor Isaías da Rosa Pereira (Patriarcal de Lisboa).
Algumas das figuras desenhadas nesta gravura coincidem com os normativos estatutários de época, bem como com relatos de memorialistas e viajantes estrangeiros, cumprindo citar António Ribeiro Sanches.
O primeiro escolar é um aluno do Colégio dos Gregos, com Loba preta ou avermelhada, envergada habitualmente por bispos anglicanos e doutores em Teologia. A sotaina não tem mangas nem botões frontais (abre nas costas), e aperta na cintura com uma faixa. Sobre a sotaina era colocada uma longa chamarra ou beca de mangas de canhão. O barrete reflecte influências orientalizantes. Na figura dois é desenhado um aluno do Colégio dos Nazarenos, com sotaina talar que, além de abotoadura frontal, comporta mangas estreitas. A chamarra exterior não tem mangas. A figura três, relativa ao Colégio da Saúde mostra uma sotaina idêntica à dos alunos do Colégio dos Nazarenos, com a peculiaridade de a beca comportar mangas estreitas. O número quatro, relativo ao Colégio dos Escoceses ostenta sotaina semelhante à do Colégio dos Gregos e chamarra do mesmo tipo do Colégio dos Nazarenos. O número cinco, relativo ao Colégio de Mateus, traduz mais forte influência laica, ao nível do tricórnio e da quase conversão da sotaina interior numa casaca. A chamarra, essa, assemelha-se à usada no Colégio da Saúde. A figura seis não tem qualquer interesse para o nosso estudo.
Fonte: Albert Racinet, "Histoire do Costume", 2ª edição, Paris, Booking Internacional, 1991, p. 201 (1ª edição de 1888).
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*Tantos anos passados, e dado que nada se conseguiu concretizar para além de uma comunicação levada ao Congresso do 7º Centenário da UC (1990), resta o consolo de ver confirmadas as intuições investigativas desses anos, impondo-se agora o público agradecimento aos que já não pertecem ao mundo dos vivos.
AMNunes

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