terça-feira, fevereiro 07, 2006


Sons da Braguesa Posted by Picasa
Grande plano do rosto do LP "Braguesa. Júlio Pereira", Lisboa, Sassetti, TR-004, ano de 1983. Obra sonora notável, muito marcada pelo amor das elites de esquerda às tradições musicais portuguesas, fruto da herança colhida nos levantamentos de Ernesto Veiga de Oliveira e Michel Giacometti. Havia nesse tempo quem entendesse, nos meios mais requentados, que o único e verdadeiro caminho para a música de expressão portuguesa era fazer arranjos para canções urbanas baseados em viras, chulas e malhões. Foi o chamado movimento da "Música popular Portuguesa". Laborando no essencial sobre canções populares provinciais, Júlio Pereira presta um contributo inestimável à causa das violas de arame, particularmente à Viola Braguesa. Entre os participantes e colaboradores contam-se nomes bem conhecidos como Janita Salomé, Pedro Caldeira Cabral (viola de gamba, ocarina) e Amélia Muge (voz). Júlio Pereira procede a fusões instrumentísticas, mas no essencial, confere primazia à Braguesa, tocada nas técnicas do rasgado e do ponteado. O interior do disco funciona como uma autêntica masterclass, incorporando um documentado texto de Ernesto Veiga de Oliveira ("Viola Braguesa. Actas do V Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros") e um diaporama fotográfico que mostra o processo completo de fabrico de uma Braguesa na oficina bracarense de Domingos Machado.
A Viola Braguesa, também conhecida por Chuleira e Ramaldeira (Porto e Douro Litoral) ainda hoje é grandemente utilizada no Minho e no Douro Litoral, seja em tocatas de grupos folclóricos, seja em grupos de música ligeira de expressão tradicional. Uma das afinações mais celebradas nesta viola de cinco ordens de cordas duplas é a do chamado Fado da Mouraria (Sol, Ré, Lá, Sol, Dó), cuja origem está por estudar. Camilo Castelo Branco, nos tempos da juventude esturdiosa vividos na cidade do Porto (anos de 1840-1850), tocava nesta "Viola Chuleira" românticas cantigas de pinga-amores e fadinhos corridos. Desengane-se pois quem pensar que a Braguesa é apenas uma viola para chulas e viras de ranchos folclóricos.
AMNunes

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